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11 Jan
Inverno, Neve, Turismo e Viagem

RELATO 5 – 2° e 3° dia em Murmansk, Rússia

Se você quer se sentir isolado do mundo, colocar as ideias no lugar, ter tempo pra pensar na vida e, principalmente, fugir do calor e da luz solar, venha pra Murmansk em dezembro. Três dias por aqui já valem por um período sabático completo. Estar em uma cidade onde você não conhece o alfabeto, o idioma (e praticamente ninguém fala inglês) e exposto a uma temperatura sempre abaixo de zero tem seu “quê” de fascinante mas também traz um tom bastante desafiador.

Essa coisa de noite polar é mais séria do que eu pensava. Além da diferença de +5 horas em relação ao Brasil, que mexe totalmente com seu organismo e demora realmente um pouco pra você dormir e acordar nos horários corretos, não ter sol é realmente algo muito diferente do que estamos acostumados. Não estou falando do calor não, mas sim da claridade.

No meu primeiro dia por aqui, no domingo passado, o dia estava totalmente limpo e o céu azul. Você via uma luz alaranjada no horizonte. Parecia uma mistura de nascer e pôr-do-sol. Eu olhei aquilo e falei: caramba, até que a noite polar é bem bonita, poxa. Não sei porque o pessoal fala tão mal dela! Mas essa impressão só durou o primeiro dia.

Ontem e hoje o céu amanheceu totalmente nublado e assim ficou. Nada de luz laranja. Eram 11h00 quando comecei a enxergar a cidade e as montanhas aqui da janela do hotel. E agora entendi porque o café da manhã vai até exatamente 11h (enquanto no Brasil, na maioria das vezes, não passa das 10h na maioria dos hotéis): como levantar e despertar já cedo no meio dessa escuridão? Sério, 10h da manhã parece madrugada.

Durante esses dois dias, minha rotina foi justamente acordar, comer algo e sair pra explorar a cidade. Caminhar sem rumo. Agora que a meta da aurora boreal foi alcançada, eu queria aproveitar esse tempo antes de ir embora pra sentir a vibe de Murmansk.

Observar as pessoas nas ruas, os meios de transportes, a vida como ela é. Isso é o que mais curto nas viagens. Então, pense só: eu levantava umas 10h00, aquele breu todo lá fora, começava a montar o quebra-cabeça de peças de roupas pra poder sair pra rua logo após o café: uma calça 2° pele, calça jeans por cima, uma meia de super aquecimento, um tênis exclusivo pra neve, uma blusa 2° pele, uma 3° pele porque só a 2° não funcionou muito bem no primeiro dia, um suéter por cima de tudo isso e depois vestia um blusão gigante exclusivo pra neve, cachecol, protetor pra pescoço e rosto, duas luvas, touca e… UFA! Cara, eu gastei bons minutos nessa segunda e terça fazendo isso toda manhã! Enfim, estamos no polo norte, não tinha como ser diferente!

Uma pausa rápida antes de eu voltar a falar da cidade e da claridade: que café da manhã era esse, minha gente? Arroz, feijão, ovo frito, bacon, batata assada, almôndegas, sashimi de salmão e peixe branco (quase um rodízio japa), e também peixe ao molho? Ah, tinha pão também, mas que pão que nada: montei o pratinho básico ideal pra um cara de 1,94 de altura, turista, que sabe lá que hora vai parar pra almoçar, e tomei aquele café feliz da vida. E lá fora já estava, digamos, realmente ficando mais “claro”.

Bem alimentado, lá ia eu pra porta do hotel respirar fundo pra enfrentar o primeiro choque térmico quando a porta automática abria. Cara, a sensação é realmente de entrar num freezer. Ainda mais porque o vento entra forte, e envolve a gente todo. Eu amo o frio, tenho total resistência a baixas temperaturas, mas tenho que concordar que esse primeiro contato com o ar gelado depois de sair do “quentinho” é um pouco assustador. Parece até que o vento faz aquele barulho “uuuuuuuuuuuuuhhhh” (não sei se conseguiu imaginar o som que eu queria fazer, mas tudo bem).

Ao começar a caminhar pelas ruas aqui de Murmansk, o que eu pude notar além do frio? Pessoas sempre apressadas, totalmente cobertas, e com aquela cara de quem está mobilizando cada músculo do corpo para tentar lutar contra o frio. E nesse clima, não tem espaço pra nenhum tipo de simpatia. Ninguém passa por você e te cumprimenta. Ninguém dirige o olhar pra ti. A única preocupação parece ser “conseguir fugir” logo daquele ambiente gelado e chegar em algum local fechado. E mesmo em grupos, as pessoas dificilmente passam conversando umas com as outras. As conversas, definitivamente, ficam pra outro ambiente. Nas manhãs com temperaturas de -10°C parece que a única intenção é sobreviver a isso tudo.

Segui caminhando e fui conhecer algo que sempre me fascina em qualquer cidade: estações de trem. E aqui em Murmansk tem uma estação bem simpática de onde partem trens pra São Petersburgo e também Moscou, e que a viagem pode durar de 27 a 40 horas, dependendo do seu destino! 😱 Quando fui fotografar a estação, por sorte, havia um trem parado. E a imagem ficou incrível, com aquela atmosfera típica de filmes europeus: tudo branquinho, aquela neve, uma chaminé ao fundo soltando uma fumaça densa, plataformas vazias.

Enfim, adorei esse registro, um dos melhores que fiz de estações de trem, com certeza. Realizado com isso, continuei o tour.

Além dos trólebus que circulam pela cidade, pude ver muitos daqueles microônibus que comentei no meu relato sobre a chegada ao aeroporto daqui. Eles têm apenas um número marcado na frente, sem o nome do destino, E algumas anotações coladas no vidro que devem ser sobre o itinerário. Eu não entendia nada, mas deduzi que seria isso. Ser turista em Murmansk não é muito fácil não, comecei a acreditar cada vez mais nisso.

Ah, e por falar em turista, na segunda-feira eu já saí procurando um ponto que eu queria muito conhecer após ver vários vídeos no Youtube e dicas no TripAdvisor: o Farol do Turista. E ele não era muito longe não. A cidade tem em torno de 300 mil habitantes, mas uma grande parte está concentrada numa região central compacta (com vários prédios baixinhos) então dá pra fazer bastante coisa a pé. Depois de caminhar por uns 20 minutos numa avenida principal daqui e começar a subir uma bela ladeira, lá estava ele, o farol. Simpático, vistoso. E adivinha? Nenhum turista. Nenhunzinho. Só eu novamente.

Sempre acreditei naquela máxima “brasileiro tem em todo lugar do mundo, você sempre acha um brasileiro perdido”. NÃO! Aqui não tem! Garanto! Cadê vocêeees, brasileiros? Eu morrendo de vontade de bater papo, pensa só, um professor e palestrante, mudo desde o pouso por aqui, viajando sozinho, louco pra encontrar turistas pra bater papo e,.. NADA. Mas tudo bem. Fiz meu registro e vi uma escadaria que terminava numa igreja bem em frente ao farol. Fui pra lá, assim eu poderia aproveitar pra rezar também, quem sabe, pra aparecer alguém pra conversar comigo.

Curiosidade: a maior parte da população de Murmanks é da religião ortodoxa. E ali estava eu em frente a uma das igrejas ortodoxas mais famosas da região, a Church of the Savior on Waters. O mais legal é que cada monumento, igreja ou memorial daqui já tem em seu nome um pouco da história, às vezes até com verbos, e não necessariamente um nome próprio. Ah, e um detalhe: essa igreja fica justamente perto de um outro memorial, dos “marinheiros mortos do submarino ‘Kursk'”, acidente que aconteceu em agosto de 2000 e vitimou mais de 100 tripulantes. Em frente a igreja, notei algumas pessoas que chegavam e seguiam sempre o mesmo ritual: faziam três vezes o sinal da cruz, curvavam levemente a cabeça pra frente, e depois entravam. Observei um pouco a movimentação mas decidi seguir, pois logo mais começava a escurecer e eu queria ainda visitar novamente o que elegi como meu “local preferido” aqui no polo norte russo: o Alyosha Monument (que citei em um dos relatos) a estátua de 35 metros de altura no alto de uma montanha.

O lugar pra mim é tão incrível que nos últimos três dias a rotina foi sempre caminhar até lá. Eu ia visitando tudo no caminho, mas o destino final era sempre estar ao lado do Alyosha. Foi ali que fiz as minhas lives no Instagram nos últimos dias com essa vista da foto ao lado (e obrigado pela participação em massa, galera). Foi ali que liguei pra família e ouvi altos conselhos de Dona Nair (alguns postei até nas Stories do Insta). E foi ali também que eu parei pra pensar na vida, nessa viagem, como citei no começo do texto. Eu me conectei com o silêncio, com o vazio, e com a sensação de estar sozinho no mundo pra admirar o mar, o porto, a cidade, e com as luzes dos prédios que já estavam se acendendo (e ainda eram 13h30).

Foi sentado ali no gelo, todo dia, que consegui sair um pouco do barulho do cotidiano e dos próprios pensamentos e pensar: realmente, viver dentro do Circulo Polar Ártico não é fácil. Essa galera daqui de Murmansk é guerreira. Que oportunidade incrível foi ter escolhido esse destino e conhecer (e viver) um pouco mais isso de perto. A aurora boreal foi um espetáculo, mas o contexto todo dessa viagem me deixou apaixonado por tudo o que vivi aqui nesses dias.

Mas confesso: eu mal começava a baixar a ansiedade, organizar os pensamentos e curtir a vibe do momento ali em cima e já notava que estava escurecendo de verdade. Ou seja, era pouco tempo pra ficar confabulando sobre a vida. Realmente, a noite polar tem seu encanto, como fenômeno meteorológico, mas ela nos empurra pra dentro das casas, dos hotéis e dos shoppings muito cedo. Quando o relógio marca 14h30 a escuridão começa a invadir. E lá vamos nós esperar um novo momento de luz às 11h da manhã do outro dia pra que todo esse ciclo, talvez, se repita. Ou mesmo pra que a gente encontre outras experiências nesse pedaço de terra no meio do gelo.

E o período sabático? O meu, em três dias, fez mais efeito do que eu esperava. O que começou com um post falando da experiência de tomar vodka com suco de laranja num voo pra São Petersburgo se transformou numa série de relatos sobre essa viagem, que pra mim tem sido incrível: ao mesmo tempo que fico mudo o tempo todo aqui no polo norte, escrever esses textos tem sido o melhor momento para colocar pra fora tudo que penso enquanto caminho sozinho aqui pelas ruas nessa escuridão. E há tempos eu não escrevia tanto assim.

Digo mais: vocês que estão lendo cada relato já viraram minhas companhias nessa viagem que, até então, era solitária. Agora, mais do que nunca, me sinto totalmente próximo de uma galera que só me incentiva todos os dias a seguir no registro do diário de bordo dessa exploração do solo russo. Valeu demais por fazerem parte disso. E estamos apenas começando! Em breve, bora lá conhecer a capital da Rússia, Moscou, pela primeira vez. Tem mais maratona #CrisnaEstrada em breve, e com muita neve, claro!

>> E para ler os outros relatos do #CrisnaEstrada na Rússia, basta clicar nos links abaixo:

Relato 1 – Voo para São Petersburgo

Relato 2 – Chegando no Polo Norte

Relato 3 – 1° dia em Murmansk, Rússia

Relato 4 – A primeira aurora boreal a gente nunca esquece

Relato 6 – Chegando em Moscou, Rússia

Relato 7 – Um sábado em Moscou, Rússia

Relato 8 – Tchau, Rússia

Acompanhe também todos os registros do projeto #CrisnaEstrada via Instagram!

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SOBRE O
PROJETO

“Um professor itinerante que tem um prazer enorme em compartilhar conhecimento pelo Brasil e mundo”. Esse é o projeto #CrisnaEstrada, e nesse espaço você encontrará, a partir de agora, um pouco dos bastidores dessas viagens que faço a trabalho e/ou a passeio. Trarei dicas, curiosidades e histórias dos mais variados destinos. O mundo visto por um palestrante, professor e turista que ama viajar. Enjoy!

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