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11 Jan
Inverno, Neve, Turismo e Viagem

RELATO 4 – A primeira aurora boreal a gente nunca esquece

SIIIIM! Sonho realizado e a meta principal da minha viagem ao Polo Norte foi cumprida. Primeiro dia em Murmansk, primeira saída pra ver auroras boreais e ROLOU! Sério, ainda tô sem palavras pra descrever o que significou tudo isso. Que experiência, sério!

Ah, e agora entendi porque a galera chama isso de “caça às auroras boreais”. Olha só: o tour começou por volta da 21h20, quando o carro da empresa Nord Tours estacionou no hotel que estou hospedado e assim que entrei, o guia e fotógrafo Alexander Stepanenko me cumprimentou já mostrando também um site que ele havia acessado em seu celular com a previsão de auroras naquela noite. “Temos boas chances”, ele dizia (em inglês, ufa). Na tela, gráficos e mais gráficos sobre vento solar, campos magnéticos e elétricos, câmeras ao vivo de várias cidades do Circulo Polar Ártico, e em uma delas a imagem denunciava: a aurora já estava lá, “acordando”, como o guia me explicou.

Ele já começou o papo se desculpando pois teríamos que rodar aproximadamente uma hora de carro para nos afastarmos de Murmansk pois o céu estava muito nublado no momento. Precisávamos buscar algum local com céu claro, ou o passeio seria perdido. Pense nessa cena: o motorista, o guia e eu olhando o tempo todo pro céu pra encontrar algum “buraco” nas nuvens.

O Alexander e o Serguei (motorista) conversavam agitadamente em russo, demonstrando preocupação e eu notava neles algumas mudanças no semblante do tipo “vamos tentar disfarçar e animar o Cris, hein, mas tá f…, tá tudo nublado…”. Confesso que comecei a ficar preocupado e pensar que talvez teria que viajar novamente um dia pro Polo Norte pra ver as tais auroras.

Quarenta minutos de estrada e nada. Eu lá encostado no vidro, ansioso, tenso, tudo junto, e de repente o Alexander dá um grito pro motorista. Acho que foi um PAAAARA, já que o motorista parou na hora! Demos ré e saímos da estrada principal entrando à direita numa pequena rua cheia de neve. O carro mal conseguia andar ali. Cinquenta metros a frente, paramos e o Alexander desceu. O motorista ficou ali mesmo. E eu não sabia o que fazer, ou melhor, não sabia nem o que estava acontecendo. Mas minha intuição disse: sai do carro Cris, acho que é aqui. E era: só deu tempo de ver o Alexander desaparecer no meio da neve e das árvores com o tripé e câmera fotográfica na mão falando “come here, come here Cristiano”.

Quando consegui alcançá-lo, lá estava ele num baita campo aberto, branquinho, com uma neve bem fina no chão, montando o tripé e já posicionando a câmera. Ele olhava pro céu toda hora, bem atento. E realmente havia uma “ilha de céu limpo, cercada de nuvens por todos os lados”. Comecei a me animar, mas do nada, fechou tudo de novo. E não voltou mais a limpar. Tivemos que voltar pro carro e fui avisado de que iríamos mais ao sul ainda, porque um site de meteorologia apontava céu claro por lá naquele exato momento. E voltamos a viajar.

Meia hora de novo rodando naquele nervosismo, e de repente o Alexander se empolga mais uma vez: “STAAAAARS, LOOK”. Eu olhei e realmente o céu abriu do nada, e estava muuuito estrelado como eu nunca tinha visto. Começou aí novamente o ritual: entramos numa outra rua cheia de neve, paramos, já desci correndo do carro, e lá fomos nós pro meio do nada. Cheguei a ficar em dúvida se eu tava caçando aurora ou tornado, meu! Pra que essa correria, será que a aurora passa mais rápido do que um cometa? Eu ali correndo, pensando nisso, mas lembrando que éramos caçadores de auroras, não? Esse nome não é por acaso. Decidi então não questionar nada.

Esse campo que encontramos no meio da mata era bem maior que o outro, com a mesma neve fininha por cima. Com a luz da lua então sendo refletida, parecia dia. Equipamentos a postos, olho no horizonte, e de repente, pude ver: a aurora boreal já estava se manifestando lá longe. Um brilho bem grande no céu escuro que parecia que se mexia, ao mesmo tempo que às vezes só parecia uma luz forte de alguma empresa ou cidade. Fixei o olhar e fiquei notando. A luz começou a se mexer de verdade e eu é que fiquei imóvel, paralisado mesmo, vendo aquilo. É real, é silencioso, é SENSACIONAL!

O Alexander me alertou: “ela está apenas acordando Cristiano, talvez ela fique bem forte logo mais, vamos esperar, temos boas chances”. E enquanto esperávamos, adivinha só a temperatura ali no local: -17°C. Caraaa, eu amo frio, mas nunca tinha sentido algo assim. Sincero? É congelante. E foi nesse frio que nós esperamos. E esperamos.

Durante esse tempo, teve papo sobre a vida, trabalho, família, tentávamos nos entender em inglês, tinha hora que misturava tudo, mas tava dando certo. O Alexander me contou que já trabalha há 9 anos fotografando auroras boreais e disse que é sempre essa adrenalina. E por falar em fotos, ele aproveitou e já pediu pra eu ficar de costas pra aurora e de frente pra câmera para alguns testes de cliques. Me senti modelo fotografando pra uma coleção outono/inverno. Aliás, com aquele frio, a coleção era só de inverno, certeza!

E finalmente, depois de testes, espera, chá com bolachas, a aurora boreal começou a se movimentar e brilhar mais forte. E os movimentos foram aumentando, sempre lá no horizonte. O guia me explicou que estávamos vendo uma aurora com índice KP 2, que mede a intensidade da aurora e tem uma escala de 1 a 9. Eu não nego: CHOREI, congelei, não tirava o olhar. É algo inexplicável. Acho que todo mundo deveria passar por essa experiência um dia. E acho que as fotos já explicam bastante o porquê dessa emoção toda.

E alguns pontos que resolvi destacar sobre essa experiência:

– O momento é lindo, mas o frio é mais intenso do que a gente consegue imaginar vendo as fotos das auroras por aí. Tem que realmente ir muuuito bem agasalhado;

– Durante o período de 1h30 de “show”, a aurora mudou várias vezes de posição, de formato, de intensidade. Você realmente não consegue desgrudar o olho do céu tentando imaginar o caminho que ela vai fazer. Na maioria das vezes, você sempre erra.

Campo aberto com neve fina? Na verdade, eu estava em cima de um lago congelado. Quando fiquei sabendo disso, não conseguia nem me mexer direito. Mas daí a aurora se movia e eu esquecia de tudo, de lago, só queria ficar admirando!

– Pessoalmente, dependendo do índice KP, a aurora boreal é cinzenta, mas também fica em alguns momentos mais esverdeada. O Alexander me explicou que as câmeras digitais possuem lentes que conseguem captar melhor algumas frequências de luz que não são facilmente vistas a olho nu. E esse detalhe não tira nem um pouco a magia e a beleza do fenômeno, garanto!

Eu só tenho a dizer uma coisa: valeu cada minuto de voos, traslados, cada real gasto e também as noites de sono perdidas organizando tudo isso, pois a coisa é simplesmente incrível. Quando o Alexander fez a última foto, ele me disse: “dá tchau pra Aurora”. Gente, você dá tchau, joga beijo, você tá tão bobo nessa hora, garanto! Saímos dali da lagoa de gelo quase 1h da manhã e as últimas palavras do meu guia: “tu tem sorte demais, primeira vez que sai pra caçar aurora, no primeiro dia em Murmansk, e já consegue ver? Tem gente que passa 8 dias às vezes esperando e o clima não ajuda. Realmente, você é um cara de sorte”.

Nessa hora eu só agradeci. A Deus, à minha família pelo apoio durante toda essa viagem tão fora do comum, aos amigos que estão mandando mensagens e comentários desde que saí do Brasil. Eu realmente não vim pra cá sozinho. Nunca me senti viajando tão bem acompanhado como agora. Obrigado a cada um de vocês pelo carinho. MESMO!

Pra quem me escreveu dizendo que conhecer as auroras boreais é um sonho, só tenho um desejo e um recado: REALIZEM. Vocês não vão se arrepender. E contem comigo em caso de qualquer dica ou ajuda que precisarem, será um prazer de verdade!

E bora lá pois ainda tem muita estrada pela frente, e também muito frio: serão mais dois dias explorando Murmansk e depois o destino será visitar pela primeira vez a capital russa Moscou, que está com temperaturas de -15°C e NEVANDO! Ai meu !

Ps1: já ia me esquecendo: no fim do passeio, o guia me explicou que há uma tradição após ver as auroras boreais que é deixar uma “máscara” na neve. Você enfia a cara no gelo, espera 10 segundos, e quando tira a cabeça de lá fica tudo marcado, nariz, formato do rosto, olhos. Não fiz desfeita e meti a cara na neve na temperatura de -17°C. Meu rosto adormeceu na hora, mas tudo é experiência e a máscara ficou com aparência de sofrimento, porque vou te dizer, não é fácil não. E que nariz é esse gente, não é meu não, é grandinho na realidade mas saiu muito amassado aí. Meu Deus!

Ps2: teve até meu primeiro anjo de neve também nessa experiência. Deitar no gelo naquele frio, olha, vou te dizer. Tô me superando nessa viagem!

Ps3: segue o link com a conta do Instagram da empresa que fez o tour. Recomendo muito! http://www.instagram.com/nordtours

Um grande abraço!

>> E para ler os outros relatos do #CrisnaEstrada na Rússia, basta clicar nos links abaixo:

Relato 1 – Voo para São Petersburgo

Relato 2 – Chegando no Polo Norte

Relato 3 – 1° dia em Murmansk, Rússia

Relato 5 – 2° e 3° dia em Murmansk, Rússia

Relato 6 – Chegando em Moscou, Rússia

Relato 7 – Um sábado em Moscou, Rússia

Relato 8 – Tchau, Rússia

Acompanhe também todos os registros do projeto #CrisnaEstrada via Instagram!

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SOBRE O
PROJETO

“Um professor itinerante que tem um prazer enorme em compartilhar conhecimento pelo Brasil e mundo”. Esse é o projeto #CrisnaEstrada, e nesse espaço você encontrará, a partir de agora, um pouco dos bastidores dessas viagens que faço a trabalho e/ou a passeio. Trarei dicas, curiosidades e histórias dos mais variados destinos. O mundo visto por um palestrante, professor e turista que ama viajar. Enjoy!

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